O céu de Curitiba tem um tom de cinza que, longe de ser melancólico, funciona como a moldura perfeita para o vermelho das telhas coloniais do Largo da Ordem. Quem chega à capital paranaense com os olhos fixos apenas no vidro da Estufa do Jardim Botânico ou na estrutura arrojada do Museu Oscar Niemeyer corre o risco de ignorar o pulsar mais visceral da cidade: aquele que reside nas pedras irregulares do Centro Histórico. Certa manhã, acompanhando um grupo de viajantes que buscava “algo além do óbvio”, paramos em frente ao Bebedouro do Largo da Ordem. Enquanto a maioria dos turistas apenas tirava fotos rápidas do chafariz de pedra, um senhor parou para observar os casarões ao redor. Ele me perguntou por que as janelas de uma casa eram tão diferentes das da vizinha. Ali, no meio do burburinho matinal, a história de Curitiba se abriu. Aquelas fachadas não são apenas paredes; são registros da transição de uma vila de tropeiros para a metrópole influenciada pela imigração europeia. O Setor Histórico é um mosaico. Temos a sobriedade da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco das Chagas, a construção mais antiga da cidade, contrastando com a elegância eclética do Paço da Liberdade, logo ali adiante.
Caminhar por essas ruas exige um olhar atento aos detalhes: As Ferragens: Repare nos balcões de ferro fundido. Muitos vieram da Europa no século XIX, sinalizando a riqueza que o ciclo da erva-mate trouxe para a região. O “Pé de Moleque”: O calçamento original em algumas áreas ainda resiste, lembrando o tempo em que o tráfego era feito por carroças e montarias. As Cores: O uso de pigmentos terrosos em contraste com o branco cal das fachadas mais antigas revela a herança luso-brasileira que fundou o núcleo urbano. A alma curitibana é reservada, mas se revela na gastronomia que ocupa esses espaços históricos. É impossível falar do Centro sem mencionar a pausa estratégica para um café no Solar do Rosário ou, para os mais tradicionais, um “submarino” (chope com uma dose de steinhäger) no Bar do Alemão. É nesse convívio entre o antigo e o uso contemporâneo que a cidade se mantém viva, longe de ser um museu estático. Muitas vezes, a logística de quem visita a cidade é apertada, focada em “ticar” pontos turísticos. No entanto, o verdadeiro luxo do turismo receptivo é permitir que o visitante sinta o ritmo local.
com quem ir para Morretes parana
O Centro Histórico é o ponto de partida ideal para entender o que virá depois. Por exemplo, a mesma riqueza que ergueu os palacetes do centro foi a que financiou a audaciosa Ferrovia Paranaguá-Curitiba. Se você observar bem, existe um fio invisível que liga o Largo da Ordem à Serra do Mar. A erva-mate e a madeira que desciam para o Porto de Paranaguá passavam por aqui, em sacos e fardos, antes de ganharem o mundo. Por isso, recomendo sempre: antes de embarcar no trem rumo a Morretes para saborear um barreado, gaste uma tarde perdendo-se nas ruelas do Centro. Entender a arquitetura de Curitiba é entender o paranaense. É uma cidade que respeita o passado, mas que soube se reinventar com um urbanismo que é referência mundial. Quando você olha para as janelas do Memorial de Curitiba — uma estrutura moderna de vidro e aço que abraça o casario antigo — você vê o reflexo de uma cidade que não tem medo de misturar épocas. Ao final do passeio, aquele senhor que me perguntou sobre as janelas comentou: “Agora eu entendo porque a cidade é tão organizada. Eles cuidam do que veio antes”.